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Comportamento por Claudia Riecken

Caso Isabella, opte pela distância competente.

Foi hediondo. Sinto enjôo quando leio os detalhes, a investigação, a enxurrada de informações sobre o caso da menina morta. E descubro uma forma competente de lidar com ele.

Sou mãe, de meninas lindas. Vivas, saudáveis, estudiosas, curiosas, protegidas, Deus permita. Sou terapeuta de mães, pais, padrastos e madrastas, irmãos, maridos, filhos, esposas, avôs, pessoas humanas. Não, o caso da Isabella não tem presença na realidade de todos nós.

Porque fazer de uma tragédia impensável, uma sugestão hipnótica de que assim é o Brasil? De que o horror e o insano são cotidianos para todos?

A mídia que funciona como o mercado marroquino, em que quem grita mais alto faz mais negócios parece estar comprometida apenas com a atenção hipnotizada de expectadores, aumentando a audiência formal e os rates de quotas publicitárias. Claro, no caso em referência, reforçando um desconforto inútil. Para adultos e para as crianças, em casa!

Conduzi 3 sessões de apoio a pessoas deprimidas e impactadas pelo caso Isabella. Uma mãe que chorava sem parar, a outra, tensa, apresentando preocupações com seus filhos de maneira acentuada e muito desconfortável, e um fisioterapeuta em crise de ansiedade. Ensinei-os a dissociar, ver de longe, separar sua realidade daquela.

Não, não quero estas imagens e idéias no meu lar. Não, não conheço nada parecido com esse padrão violento, nem nas casas de meus amigos, nem de pacientes, familiares e clientes. A imagem de nossas vidas tem outra cor, luz, sons e sentimentos, embora de jeitos e valores diversos, com problemas e erros também importantes.

Assim deve ser visto seu quadro, no olho da sua mente. Não, você e sua vida provavelmente nada tem a ver com o noticiário que invade sua casa.

Algumas pessoas defendem uma idéia alienada de simplesmente desligar a televisão e não tomar se quer contato com estas realidades inóspitas e nada prováveis para elas. Antes que seja acusada, não estou defendendo o desligamento dos fatos, não senhor. Estou discutindo uma maneira útil de saber e lidar com os fatos. Não me parece nada ecológico nem efetivo, obter-se uma legião de pessoas bem intencionadas e comuns, sentindo-se mal, com medo e enjôo. Não ajudamos a sociedade, não ajudamos ao próximo e não ajudamos nossa vida baseados no medo, mas sim no amor.

"Não estás deprimido, estás distraído." Díos e la depresion é um vídeo no You Tube, que recebi pelo amigo e pensador Venezuelano, Rob McBride. É um vídeo espetacular, narrado e produzido pelo argentino Roberto Helguera.

Não estás deprimido. Estás desocupado. Dá sem medida, e te darão sem medida. Ame, até converter-se no amado. O bem é maioria, mas não se nota porque é silencioso. Uma bomba faz mais ruído que uma carícia. Mas para cada bomba que destrói, há milhões de carícias que alimentam a vida. Vale a pena, verdade?

Quantos pais beijaram seus filhos hoje? Quantas mães acariciaram suas crianças para dormir? Quantas Boa-drastas deram as mãos aos seus esposos e aos filhos dele, de um casamento anterior, com afeto e cumplicidade? Quantas músicas foram cantadas? Quantas reuniões de bem fizeram rir? Quantos milhões de linhas foram escritas, por trabalho honesto e correto? Quantos carros atravessaram para lá e para cá a trabalho, estudo e lazer? Quantos beijos apaixonados, chopps bem tirados, sonhos bem sonhados...?! Hum? Hum?

O mal tem seu lugar. Um único homem que não reunia nem talento nem valor para viver mandou matar a 6 milhões de irmãos judeus. Temos para gozar a neve no inverno, os tacos mexicanos, o futebol do brasileiros, a música de Mozart, as pinturas de Rambrant, Picasso, as flores, o arroz doce, a cachaça mineira, o brigadeiro,o pão francês, a Internet, o amor erótico, o entusiasmo do samba, o mar... O amor aos nossos filhos.

Quanto a Isabella, minha empatia é dada, mas não minha simpatia. Na empatia, você vê, ouve e lida com os fatos, mantendo uma reserva emocional, distante. Na simpatia, você sente junto, o que outro sente.

Empatia sim. Se queremos interferir, pensar, curar, ajudar, precisamos estar bem, e a força construtiva e amorosa deve vencer outras tendências inferiores. Repito,o medo não ajuda. O mal quer envolver as pessoas, tanto quanto "o bem" tenta arrastar mais gente. Façamos escolhas.

Não, não estás deprimido. Estás distraído.

Nota: Isabella, tenho uma filha com seu nome, escrito igualzinho. Que a luz seja sua. Que você, no plano onde estiver, seja abençoada. E que sua missão se cumpra, chacoalhando uma sociedade hipócrita. Meu amor por você,dedico.

Quando os vizinhos brigam violentamente, por muitos meses, as pessoas acreditam que não devem "se meter". Os sinais do mal são nítidos, mas nós aqui, escolhemos olhar para o outro lado, em nome de limites internalizados e totalmente hipócritas. Que você nos ensine, Isabella, a nos posicionar, a interferir sim senhor, a compreender quando precisamos nos manifestar e ajudar a disseminar amor no lugar da dor e da loucura, mesmo a doméstica. Que nós possamos poeticamente conduzir reuniões de trabalho super profissionais, mas mais limpas, que nossos passeios sejam leves, que os olhares venham de bem querer. Que nós possamos olhar aos outros num restaurante, num congresso, no trânsito, em casa, como se estivéssemos olhando para os nossos amigos queridos. Espalhar essa boa energia contra a "nóia" da crítica em silêncio, de baladas e rituais sociais rasos, de ambientes profissionais ou políticos cínicos. É disso que se trata. Que você nos lembre de nos mexermos, por amor.

 
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